Crônica de Padre Paulo
Lida na Rádio Salamanca em 18 de junho de 1977
Uma tragédia que marcou Barbalha.
Terminada a festa de Santo Antônio, a reportagem da Rádio Salamanca procurava ouvir, no dia seguinte, as impressões de várias personalidades locais.
O Sr. Delegado de Polícia, Tenente Davi, um dos entrevistados, manifestou a sua satisfação pela tranquilidade e ordem com que se desenrolaram os festejos antonianos. Afirmou que apenas alguns casos corriqueiros de prisões foram efetuados durante a festa, não se constatando nenhum crime de morte e outros casos de relativa gravidade.
Não imaginava a autoridade policial que, já no dia seguinte ao seu pronunciamento, dia 15, horroroso e revoltante crime de morte era cometido a poucos quilômetros da cidade, roubando a vida cheia de juventude de uma estudante de 16 anos de idade: Maria Alzinete Honorato.
Ela era uma menina modesta, calada, recatada, estudiosa, que todas as manhãs vinha do sítio Água Fria, na região do Caldas, para assistir às aulas da 5ª série do 1º grau com mais 49 colegas no Colégio Santo Antônio.
Nos últimos dias participava dos ensaios de uma quadrilha de São João que o colégio havia programado para a próxima semana, como encerramento do primeiro semestre.
Quarta-feira, dia 15 de junho, Alzinete, terminadas as aulas, entrou com outros colegas na Rural que, diariamente, os levava para o Caldas e a deixava na beira da estrada, donde partia um caminho para o sítio dos seus pais.
Todavia, em vão os pais de Alzinete esperaram a filha para o almoço.
Não muito distante do local onde descera do carro, seria encontrado o seu corpo sem vida, maltratado e esfaqueado.
Alguém planejara aquela cena brutal, em pleno meio dia. De tocaia no mato, aguardava fremente de volúpia e crueldade a chegada do carro que trazia a vítima inocente e despreocupada.
As circunstâncias em que, na madrugada de sexta-feira, dia 16, após uma busca ansiosa e angustiante à luz de lanternas, foi finalmente encontrado o corpo inanimado de Alzinete mostram claramente a surpresa do ataque, as intenções sádicas e perversas do criminoso, bem como a resistência heróica da menina que procurou defender a todo o custo a sua virginal pureza.
Seu corpo jazia de bruços no chão. Uma punhalada certeira, desferida nas costas, atingira em cheio o seu coração jovem, cheio de esperanças e vitalidade.
Estava vestida com a calça verde da farda do seu colégio. A blusa branca lhe fora arrancada à força, de forma que os botões miquelados saltaram das casas, espalhando-se pelo leito da estrada, assim como os livros escolares, atirados à distância.
Perpetrada a ação ignóbil e vingativa, o criminoso abandonou o local e anda por aí procurando escapar à justiça dos homens.
A notícia fatídica chocou a cidade na manhã cedo. Fomos informados por um soldado de polícia quando saíamos para a missa diária na capela do hospital.
Barbalha toda comoveu-se, e lágrimas com o acontecimento.
Os alunos do Colégio Santo Antônio, seus colegas, alunos solidários do Colégio Nossa Senhora de Fátima e grande multidão de pessoas acompanharam silenciosamente o féretro, saído da residência de uns seus irmãos em Barbalha. Acorreram ao cemitério para assistir ao sepultamento.
Alzinete, jovem estudante, não chegou a terminar sequer este primeiro semestre de aulas. Seus colegas, professores e todos nós pranteamos a sua morte prematura e a teremos sempre na lembrança.
Uma cruz à beira da estrada lembrará a todos os passantes, principalmente às jovens, que ali morreu heroicamente uma menina que, com todas as forças, soube defender a sua pureza.
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Alzinete Honorato Vieira
Dia 22 de março de 2025, foi realizada a primeira missa em memória de Alzinete Honorato Vieira, no local do seu martírio. A celebração foi presidida pelo pároco da Paróquia Santo Antônio de Barbalha, o padre Ivo.
Muitas pessoas participaram desse momento histórico na comunidade, marcando o início de uma grande história de fé, memória e homenagem à vida e legado de Alzinete Honorato Vieira.
Texto e imagens: Lindicássia Nascimento